quinta-feira, 11 de julho de 2013

Direitas, esquerdas e você

A nossa vida é escrita de maneiras muito estranhas às vezes. Tu foste a contramão que peguei em um desses desafios que a estrada nos dá. Pela escolha tomada, perdi várias paisagens bonitas reservadas lá na frente para mim. A cada quilômetro que percorri para trás, esqueci um pouco do que sou pelo caminho e me tornei mais tu. E a cada grito alheio que ouvi ecoar, dizendo que eu deveria voltar ao meu percurso correto, sorria-me o horizonte à frente, sussurrando: vale a pena.

Entre grandes lombadas e incontáveis buracos, guardo a certeza de que não te caminho por ser mais fácil, nem por ter as melhores visões do pôr do sol, mas por saber que é nessa estrada que me sinto em casa, como nunca antes senti. O céu mais bonito é menos bonito quando não existe um porquê, e tu és o meu. Entre direitas e esquerdas, sempre vou te escolher.

domingo, 4 de novembro de 2012

Deserto, eu


Vendo-me os olhos e vazo por dentro. A água fina e ligeira agora escorre pela garganta. Silenciosa, ela guarda a angústia do não saber e a vontade presa do tentar entender, quando em nada me encontro e o tudo busco. Eclodem as interrogações como luzes para minha visão trancada e a torneira de mim segue aberta. Que passos meus passos acompanham?

A pulsação acelerada implora para que as pernas agitadas parem, então me deito no deserto que por lei da vida me é. Da quietude entoam-se os antes murmúrios e me confundem diante do que já, desde o rudimento, não sei. Tive apenas pressuposições que me levantaram na esteira cronológica dos meus dias e me empurraram para uma estrada cujo percurso eu percorro na contramão.

Que sirva-me, o sol, como sinestesia pura e entre em mim. Que desligue a água que corre e ligue algum calor motivador capaz de dar voz, pois com essa rouquidão dos gritos da vida só é possível chegar ao boteco mais próximo e pedir mais uma música surrada enquanto reclamo do nada, sendo o nada o tudo, e nesse tudo me encontrar, contra vontade. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Isabella Taviani apresenta novo álbum no projeto "Nova no Teatro"

Foto: Catarina Bogéa

O Teatro Abril recebeu a cantora Isabella Taviani nesta terça-feira, 23/10, para o projeto “Nova no Teatro” – uma parceria da Nova Brasil FM com a Time For Fun. O projeto, inaugurado por Oswaldo Montenegro, leva ao palco paulistano grandes nomes da MPB.

Isabella Taviani apresentou seu quinto álbum, “Eu Raio X”. Para a divulgação do novo trabalho, a cantora perdeu 15kg e raspou os cabelos. Durante o show, deu uma breve explicação aos fãs sobre o objetivo do novo disco. “A ideia era permitir me ver por inteira, sem cabelos, nua e livre de qualquer barreira”, disse ela.

O CD gravado teve parceria com a cantora Myllena, que participou do quadro Garagem do Faustão, e produção do baixista André Vasconcellos. O repertório contou com sucessos como “Diga Sim Pra Mim”, “Digitais”, “Último Grão” e “A Canção Que Faltava”, composta para o disco mais recente.

O novo álbum também será apresentado em Aracaju, Salvador e João Pessoa. Isabella volta a São Paulo em dezembro para novas apresentações. 

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Balanço da esquina


Jogo as lembranças no balanço da praça na esquina com a esperança de que lá no alto elas peguem impulso e voem. Por um momento cruzo os dedos e torço para que o vento assopre-as para o espaço que é imêmore, onde não há gravidade que traga de volta.

Sempre me quis aqui, no chão, onde pudesse alcançar a realidade, ainda que por vezes reclamasse da falta de asas e discorresse insistentemente sobre o quanto desejava voar. Era mentira. Isso requer uma cabeça vazia demais, que não pese e não puxe pra baixo quando você alça voo.

A minha esteve sempre cheia. Sempre tive arquivados espaços próprios para cada pensamento, cada eu, cada você, cada eles, cada nós. E mais tantos outros que nem cabem em pronomes. Ou cabem, mas preferi deixar na lixeira, desativados para mim. Emaranhado de letras desnecessárias.

E lá se instalaram uns alguéns, nunca ditos, presos nos segredos pelos meus dentes travados. Números, imagens, verbos. Tudo isso para me ver outra vez com os braços cansados de tanto empurrar esse balanço que vem e vai e nunca solta no ar o lixo que faz pesar minha mente.

Gravidade, me deixa esvaziar? 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Poesia Colorida


A poesia hoje me chega mais fácil, como as ondas molham os pés de quem está à beira mar. A poesia me chega em forma de sorrisos, escondidas em motivos cuja minha boca quer calar. E cala pra guardar, sei lá... Medo bobo de que roubem ou que as palavras voem para longe. Quero-as comigo, que me fazem companhia.

A poesia, que se foi, hoje me vem, e não tão embaralhada assim. Vem ligeira e não larga. Brilha meus olhos e me colore para o mundo. Então caminho nas pegadas nunca percorridas tentando entender como alguém consegue ver o mundo tão preto e branco e por que os outros nunca se arriscam para tentar conhecer o mar...

Dá uma vontade de gritar: “Ei, essa lagoa aí não é nada perto do azul que tem aqui... Deixem essa trilha pra lá e se enfiem no mato... Procurem algo novo”. Mas que nada... Ninguém escuta. Então deixa pra mim, que não reclamo... Não reclamo nem da falta de outro alguém comigo... A poesia me basta. E não me sai. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Notas avulsas


E se eu dissesse que a transparência de agora se deve ao sentido que tudo fez? O mundo se fez mundo e virou meu. Findo-me no sorriso que furtou lágrimas e seguem me perguntando: por que choras? Se soubessem... se soubessem...

––––

Fez-se relógio que grita o tiquetaquear na cabeça alheia presenteando agonia aos desequilibrados. E aí que subo na minha corda bamba apostando que dessa vez eu consigo chegar ao final, pondo pé-após-pé sem barulhos. Ouço apenas o silencio da minha mente que me tem por inteira e me flutua na corrida do tempo.

––––

Ficou em agosto teu gosto... gosto que agora escorre, percorre e que só um porre é capaz de resolver. Aí me perco aqui, entre teus perfumes, vários perfumes, e conheço todos... Me perco aqui, entre teus risos, poucos risos, que já nem sei. Será que soube alguma vez? Sabe-se lá, lá na esquina, onde talvez tenha ficado um pouco de ti, de nós, ou apenas um pouco da cerveja que bebemos naquela noite. Sei lá...

––––

Agora paro sempre na quarta linha. No mais, arrisco-me no precipício da quinta. E aí as palavras se tornam tão invisíveis quanto a superfície dos meus olhos – virei-me por dentro. E mais uma vez ninguém conseguirá compreender a força que minhas palavras embaralhadas têm e o peso da enorme bagagem que elas levam. Parei agora, antes de chegar ao quase-cair.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Ei, você.


Sempre acertei as cartas do jogo da sua vida. E não se preocupe agora. Essa angústia passa. Mesmo que aos pouquinhos. E provavelmente mais devagar que minhas palavras. Mas não feche esse rosto. Você sabe que estou aqui, não sabe? Sempre. E você sabe que eu odeio sempres. Só me permito o seu. E nem sei, mas desde que me conheço quero que seja!

Sinto muito, pequena. A vida tem dessas. Ela traz tristeza, mas bem agarrada a ela está uma luz sendo carregado por algo de verdade, que te chegas no fim da noite, disfarçada. Abre um pouco esse sorriso. Eu adoro o seu sorriso!

Levanta daí. Se precisar de ajuda, avisa. Sabes que vou correndo, então tomamos um vinho, conversamos um pouco, mas nunca sobre ela. Sobre nós, talvez. Sobre alguns sempres. Sobre certeza. Você!

Te faço rir, prometo. Me espera, estou chegando. Levanta desse sofá, lava o rosto, finge que é um jantar legal. Te levo um presente, mas fica presente, tá? Não voa pra trás. Deixa eu te puxar. Volta pro chão. Alcança o relógio. Vive o tempo e te refaz.


Agora abre a porta. Cheguei. Estou aqui. Por você. Pra você.

Queda


Caí de você
Como se cai de uma nuvem
Como se cai de uma escada

Suavemente
Bruscamente
Caí em você

Desarmada
Desprotegida
Caí com você

Mas você levantou
Eu continuei caindo

Caí de mim
E nunca mais me resgatei

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Te deixa, deixa estar


Te encontrei esta noite, escondida debaixo do travesseiro da minha respiração. Te olhei esta noite, cabisbaixa, com a voz falha. Te lembrei esta noite, quase nada, mas muito. Mas vou dizer: te pensei esta noite. Pensei tanto que quase me esqueci de não pensar. E esqueci.

Te esqueci esta noite, porque te pensava enquanto te quis, aí não quis mais. Te pensei enquanto devias me pensar, mas tu não pensavas. Estavas ocupada demais a recordando. Então nos desencontramos no olhar da memória. Eu também, não posso negar.

E assim nos perdemos, nos muitos pensamentos que evitamos e prendemos. Nos perdemos nos muitos sussurros que guardamos, esquecemos. Nos perdemos por uma estancada na linha de chegada, e nunca saímos. E agora?

E agora deixa. Deixa, porque escorreu. E já era. Te pensei somente porque me lembrei de lembrar. Esqueci que precisava esquecer, porque já tinha esquecido. Deixa, porque não há mais nada a fazer.

Vou agora, cansado, me encontrar, pois acho que me perdi um pouco na áurea do teu amar, que nunca foi meu. Não a julgo. O meu também nunca foi teu. Então deixa estar.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Tristeza Parafraseada De Um Escritor


Engraçado como as palavras travam no amanhecer da felicidade. À medida em que o sol da alegria levanta na janela da nossa vida, os parágrafos somem. As letras se jogam das pontes, derretendo no infinito, enchendo de poesia o nada.

Pouca gente entende. Escritor sempre tem dessas de inventar tristeza, mesmo onde não há. Exagerar o mundo, converter formiga em elefante. Lágrimas são textos prontos – não precisam fazer coisa alguma além de cair. E nesse cair já existe o tudo.

O maior alvoroço do mundo cabe no ecoar de um sorriso. E então cala. O seu corpo ri e sua boca paralisa. Alegria é sempre sentimento, nunca palavra. Tristeza que diz. Tristeza que tem mãos cansadas. Por isso, aqui falo somente da alma de quem escreve, pois é necessitada do vazio, mesmo inventado, para fazer existir. É preciso de silêncio para poder gritar no papel.

No meu encontrar da felicidade, desisto. Estou perdida na diluição de letras enquanto, eufórica, minha alma grita por pieguice barata. Agora, sou só líquido cru com sentimento derretido. Assim, findo no silêncio. Felicidade líquida só é bom pra quem toma, e no momento o meu riso me impede de escrever.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Declaro-me culpada


Impulsiva assumida, contrario-me no julgar enquanto me faço sentimento. Nunca afirmei serem as minhas atitudes as corretas. Ao contrário: sou esquerdista, faço parte da acusação, juiz condenador do réu que tenho em mim. E confesso: culpada. Nunca disse que estava certa. Aliás, nunca disse que estava nada.

Não estou. Nunca estive. Meu corpo sempre teve como diversão preferida ir contra minha mente, desafiar meus pensamentos, agir à tangente do meu querer. Na verdade, em partes, é só o que faço: erro. Sem propósito, encontro-me dirigindo nessa estrada de erros onde, a cada parada, meu corpo encontra a ponte da qual se jogar.

Engraçado: já sei dos pulos dados, já conheço o meu chegar despreparado, sei que não posso me aproximar do precipício, que olhar para baixo me faz cair, até quando penso na dor. Não deveria me deixar levar, de novo, de velho, de sempre. Entretanto, não sei. Na hora, sempre me encontro pensando se vou voar. Por um segundo, talvez. Por um milagre, claro.

Empurro-me. Caio. Não voo. E morro-me. Em todos os sentidos da morte, menos no verdadeiro. Então me condeno. Novamente, culpada! Homicídio doloso. Só não me pergunte por quê. Eu nunca sei responder.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

De presente, o presente


Sigo com a ideia fixa de que a vida se derrete no relógio corrido marcando a hora certa. Não me apetece quem vive além ou aquém, em sonhos ou fotografias. Viver o adormecer ou o tédio de um domingo comum me parece bem mais coerente do que sofrer doses de nostalgia num recordar atordoado de algo caído no infinito da vida.

Reviver é bom, querer é necessário, porém prender-se em algum dos extremos de um cabo de guerra é como pedir para a pessoa do outro lado soltar e, neste momento, seus ossos se quebrarem no chão. Bom mesmo é permanecer de fora, largar a corda e correr de braços abertos buscando as horas que escorrem em você. Bom mesmo é se presentear do presente.

É no agora que a gente se faz, se vive e pode se ser. No antes, fomos. Como bons humanos mutantes, modificamos. No próximo, seremos. Não sabemos.  Os móveis quebraram, as paredes sujaram e tudo apenas consertará se a atitude nascer. Por isso, faço-me viver no tempo que grita e diz: deixa ser, deixa suceder.

Velocidade do alheio


Bom é desmanchar-te nas páginas de um livro. Descobrir-te entre verbos jogados por outra pessoa que te vive e nem sabe. Bom mesmo é te encontrar no alheio quando tu te perdes na estrada conhecida. Ou achar companhia distante que te ensina a caminhar nas curvas novas repletas de buracos, sempre presentes até nos mais belos caminhos.

Vi-me cega num lapso de nervosismo enquanto dirigia em alta velocidade em uma rodovia repleta de caminhões. Foram as vírgulas não vistas pelos outros que pararam o tempo. Foram os tantos ques que me tiraram do caminho exatamente quando eu precisava. E gritaram. Gritaram para eu tomar cuidado.

Às vezes, o velho "conhece-te a ti mesmo" é a deixa necessária para nos permitir conhecer pelo outro que nem mesmo nos sabe.  Às vezes, nem mesmo o pensar adianta para refletir sobre o feito por ti. Então deixa alguém te entrar, deixa alguém te saber. Deixa que alguém te faça sentir o que sentes e ainda não floriu. 

domingo, 24 de junho de 2012

Ausente Presente


Existem dois tipos de distância: a distância entre corpos, comumente conhecida, e a distância entre almas, sempre presente, entretanto pouco admitida. Sem dúvidas, a que separa fluídos interiores é bem mais complexa e difícil, porém hoje escrevo-me somente na saudade real, palpável, desejando apenas capacidade de caminhar muito e rapidamente para encontrar meu corpo entre abraços de quem tenho longe.
 
Hoje, calo-me no chorar do tardar da noite, enquanto todos silenciam e os soluços abafados parecem ecoar. Hoje, falo só do sussurrar de uma voz conhecida que falta, fazendo puxar pro vácuo o resto que ocupa espaço mas difere nada.

Não estou num monólogo sobre carência, mas num diálogo entre mim e eu sobre aquilo que me tem sem me ter, entre tanta estrada que corrompe espaço de uma alma preenchida, presente do ausente.

Hoje, termino-me em alguém, alguéns, nos próximos distantes, no meu eu que só consegue se ser quando está perto de quem realmente é matéria. Termino-me em quem em partes me é e por isso me faz. 

Carta do fundo da caixa


Querido alguém,

Estou há muitas horas me resumindo num ofegar sem fim de tanto chutar as paredes dessa caixa que não cede. Minhas mãos já se estragaram por tentar rasgar, quebrar, abrir de qualquer jeito esse espaço escuro. Nunca fui claustrofóbica, mas sinto que estou começando a ficar apavorada. Apesar de respirar fundo diversas vezes seguidas, meu coração permanece acelerado e um sentimento angustiante cresce no meu peito. Sinto vontade de chorar.

Gritei tanto que minha voz não sai mais, por isso agora te escrevo. Escrevo para hora qualquer alguém sentir meu desespero desnecessário, gasto entre quatro paredes nunca ouvidas ou vistas. Escrevo para alguém me ler enquanto derramo lágrimas que já nem caem mais. Enquanto tristeza transborda apenas em minha imaginação.

Acabou. Sequei. Já não tenho mais voz, gotas de água salgada, força, vontade. Não tenho mais nada, a não ser um pouco de motivação que me mantém sentada para mover meu pulso que por ora forma palavras num papel amassado. Não tenho nada além de letras que fotografaram meu momento mais íntimo: medo, solidão, fraqueza.

Quisera meu pensamento derrubar a solidez que me cerca. Agora sou apenas vontade de ver o sol novamente. Sou apenas tentativa de reviver, renascer, reabrir para o mundo. Sou apenas querer, e findo. 


Com aflição,
Eu.

sábado, 16 de junho de 2012

Solidariedade do escrever


É fácil demais afirmar não ter palavra para definir um sentimento, pois na falta do existir cabem milhões delas que formam algo belo, ou algo terrível, dependendo do sentido. É comum demais, visto pela dificuldade de transformar sentimento em alfabeto montado. Entretanto, venço a dificuldade no tentar, inventando, criando, juntando, remendando letras em formas oblíquas de contrações involuntárias avermelhadas.

Meu ser virou papel, mais tarde transformado em cinzas, pois tudo externado por mim dilui-se no infinito a partir do momento em que sai do que sou e percorre vida alheia, penetrando no mundo que não é meu.

Alterno-me num punhado de egoísmo e solidariedade. Divido vida transmutada em palavras com os outros num ato desentendido por um corpo que quer reter lembranças suas e calá-las em suas entranhas. 

Minhas palavras criam vida e me usam como estrada para pegar impulso e voar. E sou, mesmo, apenas isso: base para o que não é mais meu. Entrego ao mundo o que me entrega. Desfaço-me num amontoado de pontuações e distribuo nas chuvas, responsáveis por mais tarde encher de mim todos os mares.

Agora, façam o que quiserem. São seus os textos meus, são suas as ideias minhas, são de vocês os meus eus, que se perdem nos tantos quebra-cabeças que faço do meu escrever. 

Uma dose de romance na acidez do mundo


Por que estás tão longe? O que te faz permanecer a tantos passos deste lugar? Aproxima. Vem aqui e diz que sim, sorri em mim. Diz que me quer, que sente minha falta. Diz e me tem pra ti, que te tenho pra mim, que nos temos apenas para nós entre nós mal feitos numa corda escorregadia que resvala entre meus dedos. Enrola em nossos espectros, faz laços bonitos em nos abraços fugazes, então os eterniza. 

Entra em meu olhar e redescobre o descoberto, lê as palavras embaralhadas, avulsas, soltas entre linhas desconexas e entende o que de meus lábios não sai. Escuta o som que não consigo soltar, então repete-o em voz alta. Pergunte o que quiser e confirmarei mesmo que em sussurros, em sorrisos, em batidas aceleradas de um órgão que deveria aquietar ao teu lado, mas que apenas grita e me assusta. 

Segura a corda com força enquanto puxo para mais perto e acompanha o caminho. Pode vir devagar, não me importa. Mas vem. Vem, porque o meu coração, que não silencia ao teu lado, canta de um jeito que me alegra quando tu apareces. Vem, porque a quietude do meu interno quando estás distante não me apetece. Vem, porque te espero e, por enquanto, te quero. Quero enquanto os deslaces forem para reajustes, para descartarmos nós cegos e firmarmos um entrelace entre promessas de um encontro no meio de uma corda forte. Quero enquanto posso te ver aí do outro lado, segurando do teu jeito meio bobo o que nos une. Então, vem logo e faz meu coração gritar enquanto cala meus lábios com o toque dos teus.

Inexistindo-me no novo


Encontrei-me numa busca entre becos escuros capazes de esconder um corpo: apenas um corpo. Minh ’alma desvencilhou-se do material, voou em direção ao nada. Extraviei-me no meio da corrida enquanto me impedia de mover os lábios para soltar o que queria. Tanto calei que me faltou o ar para ir atrás do perdido. Verdade fugiu. Não me era mais.

Quis converter-me em novidade para percorrer novas trilhas. Não sabia que só consegue caminhar quem é. E eu já não era. No momento em que quis mudar, fugi de mim, escorri pelos meus próprios dedos, derretendo na areia de gente pretérita.

Pelos muitos grãos no solo, busquei um velho sorriso que coubesse no espaço de meus lábios. Quis encontrar qualquer coisa que movesse meu corpo petrificado; qualquer pedaço de vida. Busquei, principalmente, as palavras jogadas fora para ver se agora teria coragem de discursá-las. Elas eram as únicas com o poder de me libertar.

Encontrei, no canto de um caminho escondido, uma carta surrada com frases antigas nunca ditas. Escritas no meio de muitos borrões, sussurrei enquanto entrava em mim, existindo novamente, findando-me num viver que havia escapado. Ouvindo-me, pude me sentir humana de novo e pude finalmente dizer: eu sou.

domingo, 3 de junho de 2012

Liquidez Sólida

Não tão contente em ser externa, suprimo minha frustração com a escrita, onde posso alojar toda minha liquidez de um eu que só vive aqui dentro, só grita até chegar à pele, então cala. Cala, porque sempre fui de pinturas, de amostras. Não que eu veja beleza nisso – sempre achei desprezível, aliás. Mas o que posso fazer se desde pequena me ensinaram ser errado sair de qualquer jeito à rua? E disso brotou uma preocupação extremamente desnecessária e fútil num corpo que tinha tudo pra não ser corpo; ser só alma.

Finalizo-me num saber morto em si mesmo. Sei o quão desnecessário é arrumar-se frente ao espelho quando o ouro foi engolido e prendeu-se no estômago, mas meus dedos permanecem a desembaraçar os nós nos fios de cabelo engatados por conta do vento. 

E daí? E daí se não há pintura no rosto, se não há combinação nas cores das peças de roupa? Quão relevante isso chega a ser? Zero. E sei. Sei. Sei tanto que me ignoro, me julgo, mas também me proíbo de ir contra o fixado em meu ser, preso num exterior bobo. Não tanto assim, pois me encontrei estática no estágio da balança em que, ainda bem, até as tripas pesavam mais do que a barriga, se me entendem. Entretanto me aborrece saber: o peso do segundo produto findou-se num preço mais caro do que o esperado.

Nem os olhos... Nem esses têm tanto peso. Nem eles, que às vezes parecem carregar o mundo, pois não são os responsáveis por segurar tanto sentimento em si... É o olhar, e esse também faz parte da minha liquidez – e a de qualquer outro ser humano, mesmo ele em época de seca. Não são os olhos os resumidores do ser, do homem, da mulher, da criança, da alma... É o olhar, e a estrada deste vai bem mais além do que a íris alcança.

Então termino este texto registrando uma mágoa por ainda pagar um preço, mesmo baixo, pela carne quando podia ser nada, e desse nada surgir o tudo. Termino deixando uma ponta de esperança de que muitos se percam num tentar desenfreado de colocar peso no lado aguado da balança, porque ele, sim, é que mata a sede.


*Texto parte resposta parte inspiração dessas palavras que me tocaram... E parte inveja dos que desnudam-se à frente da sociedade física e psicologicamente. 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Movimento Imóvel


Mais uma vez encontro-me aqui, estática, tentando transparecer uma calma que não é minha para sei lá quem, sei lá por quê. Simulo que sigo em frente, caminhando, mas todos enxergam que meus passos não avançaram. Entretanto, persisto negando. Estou caminhando, não veem?

Transformo-me em esteira ambulante, dando passos no ar fingindo que vou a algum lugar. Permaneço. É apenas uma tentativa carente de calar as pequenas demonstrações de fraqueza que vazam de meus olhos gritando o quanto ainda estou, lembrando o quanto ainda não fui.

Furto-me de mim mesma, escondo-me do que sou e fujo do externo, concentrando-me num espectro arquivado na gaveta mais escondida do que significo. Esqueço seu número. Esqueço sua pasta. Não quero mais aquele conteúdo.

Nada mais é concreto em mim. Apenas sinto, sobreposse, partículas sobreviventes gritantes, de um ser que não é mais, que estancaram num implorar por descanso. Aflição aguda.

Perdi tudo que tinha e não tinha nada. Transmudei-me em um número negativo cercado de tantos positivos. Descolori-me em plena metade do caminho no arco-íris brilhante. Um nada no meio de tudo. Sou o que ficou para trás perdida num tanto faz que cansou, cedeu. Pois nesse tudo, que é mundo, nunca houve espaço para o meu nada.
Leia mais em : http://anjodosblogss.blogspot.com/2011/01/como-bloquear-o-copiar-colar-no-blog.html#ixzz1uiJkywxX Leia mais em : http://anjodosblogss.blogspot.com/2011/01/como-bloquear-o-copiar-colar-no-blog.html#ixzz1uiJkywxX